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Barulho da chuva me deixa desesperada’: vítimas de enchentes podem ter mesmo transtorno dos sobreviventes de guerra

Muitos sobreviventes de tragédias enfrentam o transtorno de estresse pós-traumático

Só de ouvir o barulho da chuva já fico desesperada. Vem aquela ansiedade, o coração fica acelerado e começo a chorar. Quando chove à noite eu não durmo e fico na janela olhando o rio para ver se ele está subindo”.

O relato é da guia de turismo Carla Suzart, de 47 anos, que mora no bairro Coqueiral, em Recife (PE), e há dois anos viu a casa ser invadida pelo transbordamento do rio Tejipió, após os temporais, que, ao todo, mataram ao menos 147 pessoas na Região Metropolitana do Recife.

Sentimentos como os relatados pela guia de turismo são comuns em pessoas que enfrentaram alguma tragédia ou trauma e podem desencadear o transtorno de estresse pós-traumático – o TEPT, como as vítimas das enchentes que atingem cidade do Rio Grande do Sul.

Em 2022, segundo Carla, a água chegou a atingir mais de um 1,5 metro de altura dentro de casa e a família perdeu diversos móveis e eletrodomésticos. Sem conseguir deixar a residência, que é própria, ela conta que a família precisou adaptar a casa para se proteger das enchentes.

Os móveis hoje são de cimento para evitar que se estraguem com o contato com a água e ela construiu com o marido mais um andar no imóvel.

Nessa época de chuvas, subimos geladeira, fogão e móveis para esse andar e na nossa casa deixamos apenas o colchão, que é fácil de tirar em caso de enchente. E quando a água do rio começa a subir, nós vamos para a casa da minha cunhada, porque apesar de não atingir o andar de cima, a gente não sabe se a estrutura aguenta a força da correnteza”, diz.

Apesar de há dois anos Carla não ter perdas materiais devido às enchentes, ela conta que todo o sentimento de angústia vivida em 2022 veio à tona ao acompanhar a tragédia no Sul do país.

“Evito acompanhar porque me dá crises de choro e me vem à cabeça todos os momentos de desespero que passamos aqui, quando a água passou da altura da nossa cintura”, diz ela, diagnosticada com o transtorno.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil, a pessoa reage à experiência com medo e impotência, revivendo o ocorrido em pesadelos, pensamentos que surgem com ou sem gatilho e até mesmo tendo flashbacks —quando a pessoa sente como se estivesse passando pela situação novamente.

“Voltam sons, imagens e sentimentos do momento vivido que gerou o trauma e isso começa a afetar a qualidade de vida. A pessoa pode se isolar, evitando pessoas e locais, começar a ter alteração de humor, choros constantes, insônia e perda de apetite”, explica a psiquiatra Jéssica Martani.

O diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumático é realizado quando os sintomas persistem por mais de um mês após a situação que gerou o trauma, podendo surgir até seis meses depois do ocorrido. Segundo especialistas, é preciso atenção a essas pessoas, já que o transtorno pode até levar ao suicídio.

Até a década de 1980 o transtorno era chamado de “neurose traumática de guerra” por ser muito comum nos sobreviventes desse tipo de situação.

Como aumento do eventos extremos por conta das mudanças climáticas, sentimentos como esse também estão sendo chamados de “ansiedade climática”.

Acompanhamento psicológico

Atuando como voluntária no atendimento e acolhimento às vítimas do Rio Grande do Sul, a psiquiatra e psicoterapeuta Graziela Stein, moradora de Gravataí (RS), explica que os primeiros atendimentos de acolhimento das vítimas são muito importantes para que elas consigam lidar com a dor da situação e minimizar as chances de desenvolver o transtorno.

“É importante ouvir essa vítima e acolhê-la com empatia. Deixar ela contar sobre o que passou, sobre os sentimentos daquele momento, dar espaço para que ela possa processar e externar a dor. Isso pode fazer com que a situação não se transforme em um trauma”, explica Stein.

Ainda segundo a médica, após esse primeiro impacto gerado pela tragédia, o desafio é fazer com que essas pessoas sejam encaminhadas para equipes de psicólogos permanentes em cada um dos municípios afetados.

“A maioria dessas pessoas perderam tudo, inclusive familiares. Quando essa primeira fase da tragédia acaba, essas vítimas só querem reconstruir suas vidas e trabalhar. E isso é um desafio, porque a saúde mental acaba ficando de lado e o problema pode surgir meses depois”, acrescenta.

Em nota, a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul explicou que profissionais capacitados e voluntários vêm fazendo esse primeiro atendimento à população e que o Estado irá repassar recursos específicos para esse fim aos municípios prioritários – mais afetados.

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